Protesto toma conta das ruas e escancara insatisfação dos carroceiros
Recife amanheceu completamente diferente na segunda-feira, 18 de agosto de 2025. Sete pontos estratégicos da cidade foram tomados por carros de boi, fumaça preta de pneus queimando, trânsito travado, buzinas, e muita gente caminhando pelo asfalto: os carroceiros decidiram protestar de forma simultânea contra a proibição de veículos de tração animal. A cena de caos urbano deixou muita gente presa no engarrafamento, especialmente na ponte José de Barros Lima, avenidas Norte, Abdias de Carvalho, Recife e Caxangá, além da congestão absurda na Agamenon Magalhães — pessoas desciam de ônibus e motos pra tentar seguir a pé, enquanto o cheiro e a fumaça das barricadas podiam ser sentidas longe dali.
Pouco depois das 6h30, o Corpo de Bombeiros foi chamado para apagar as chamas e liberar o caminho. Mas a essa altura, o recado já tinha sido dado: os carroceiros não vão aceitar calados o fim da circulação de seus veículos. O alvo do protesto é a Lei Municipal 17.918/2013, criada durante a gestão de Geraldo Júlio, que vai proibir por completo a circulação de carroças e carroceiros a partir de 31 de janeiro de 2026. A revolta dos trabalhadores cresceu quando entregaram na Câmara Municipal um documento com 10 exigências, de mudança de lei até políticas públicas de cuidado animal e cursos de qualificação de trânsito para a categoria. Liderando o grupo, Marcos Batista deixou claro: não vão parar enquanto o prefeito João Campos (PSB) não receber uma comissão dos manifestantes. Caso contrário, prometem montar barraca na sede da prefeitura e espalhar ações pela Região Metropolitana, citando até bloqueios próximos à Arena de Pernambuco na BR-232.
Choque de interesses: cultura, direitos e promessas não cumpridas
Os carroceiros defendem sua profissão como fonte de renda e parte da cultura popular do Recife, alegando que a lei trata todos de forma igual, sem separar quem cuida bem dos animais daqueles em situação de maus-tratos. Eles desejam a revogação da proibição ou ao menos uma reformulação dialogada, esperando que as regras levem em conta a realidade de quem depende da carroça pra viver.
Já a prefeitura alega que está facilitando a transição: oferece cadastramento, compensação financeira para quem entregar o animal e a carroça, cursos de qualificação profissional, incentivo ao empreendedorismo por meio do CredPop Recife, vagas de trabalho via GO Recife, oportunidades na Emlurb, e até doação de triciclos recicláveis. Só que, segundo os trabalhadores, na prática essas medidas acabam não atendendo todo mundo, ficam presas na burocracia e não solucionam o drama do desemprego iminente. Ou seja, sentem-se sem alternativa e sem diálogo de fato.
O impasse virou briga política dentro da Câmara Municipal. Teve audiência pública, bate-boca, e acusações de oportunismo dos dois lados. Uma parte dos vereadores tenta ganhar tempo para um acordo ou soluções mais humanas, enquanto defensores da lei batem o pé para manter a data final rígida. Por trás do debate, ativistas de defesa dos animais pressionam pelo fim da tração animal, mas pouco se fala das consequências imediatas para centenas de famílias.
Esse conflito não é novidade: em junho, protestos parecidos já tinham travado outras regiões do Recife. Agora, ganha força conforme a data do banimento total se aproxima, sem que as angústias dos carroceiros sejam amenizadas. A tensão urbana segue em alta e o futuro dos trabalhadores ainda é uma incógnita, alimentando, a cada manifestação, uma cidade dividida entre tradição, direito ao sustento e novas regras para os animais nos centros urbanos.
Bruno Leandro de Macedo
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